segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sono?


Ah, dormir…

Não consigo me acostumar com a idéia de que algumas pessoas não gostam de dormir. Eu amo dormir.

Entregar-se àquela cama, macia e reconfortante, que te recebe com um abraço todas as noites. Esquecer dos problemas do dia-a-dia, do ritmo frenético que se impõe à nossa consciência. Relaxar todos os músculos do corpo, e perder, aos poucos, a consciência...

Ah, a doce perda da consciência... imergir delicadamente na escuridão total, libertar a mente da cansativa lógica mundana, das convenções abstratas, sem preocupações, sem prazos. Arrebatar-se suavemente, aconchegar-se e esquecer da constante luta contra a gravidade. Deixar o silêncio ocupar toda sua mente.

Cada sono tem sua eternidade, por mais efêmero que seja.

Eis que então... então vem o despertador! Essa máquina maldita que mede, que mensura nosso sono. Esse carcereiro do descanso, que mantém sempre um vínculo com o mundo externo, o tempo.

Acordar é sofrer. É trazer a tona a consciência trôpega, pura e cristalina, e lançá-la neste mundo de dor, de barulho, de incessantes luzes. Ativar, à força, todas as terminações nervosas, o olfato, a visão, a audição, o tato. É voltar a sentir todas as dores, crônicas e agudas.

É como se fôssemos mergulhados em água gelada, sem dó nem piedade e, num estalar de dedos, nosso cérebro fosse entulhado de novas informações. Imagens, sons, cores, lembranças, compromissos, escola, trabalho... Acordar é nascer de novo, todos os dias. Agora entendo a dor, o choro do recém-nascido. Acordar, nascer... doem!

Acordo todos os dias e, a primeira coisa que penso, é exatamente na hora em que irei dormir novamente. Dormir é tão bom que, quando lembro daquela velha metáfora sobre o sono eterno, a morte não me parece nem um pouco ruim.

Poderia ainda dizer que... ah, droga, meu celular despertou... lá vamos nós de novo!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

À sua imagem, minha semelhança


Não me interessa quem eu sou. Ainda insisto no velho erro de tentar me definir. Logo eu, falando sobre mim, que incoerência.

Eu sou aquele velho retrato, preto-e-branco, em alguma prateleira na casa da sua avó. Sou aquele antigo disco de vinil, esquecido na caixa de algum guarda-roupa. Ou apenas mais um blog, chato e maçante, em meio a tantos vídeos e músicas que rolam na internet.

Não perca seu tempo querendo me entender. Já basta o tempo que eu perdi. Eu não quero ser, quero apenas estar. Não tenho rótulos, sou uma garrafa vazia, me encho com o que você me dá.

Fique a vontade para me rotular, sou exatamente aquilo que você acha que eu sou. Olhe atentamente nos meus olhos. Olhe, julgue, rotule. E verá você. Porque eu, eu não sou ninguém. Eu sou apenas o seu espelho.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Hoje não


Deixem-me em paz. Tudo que eu quero é me fechar no meu mundo, me curtir na solidão dos meus pensamentos. Quero sentir a lágrima que desce pela minha face, gelada, fazendo seu caminho rumo ao solo. Quero mergulhar o rosto no travesseiro, e gritar sem ser ouvido.

Quero morrer por um dia. Quero viver esse vazio que me enche o peito. Quero gozar essa tristeza, e me sufocar com essa melancolia. Quero sentir a raiva do mundo, me sentir culpado, me sentir injustiçado. Quero explodir em ódio e te culpar. Culpar o mundo. Culpar todo mundo.

Quero um pouco de paz e muito silêncio. Quero verter lágrimas negras, imundas, até que minha alma fique limpa, lavada, e meu choro cristalino.

Não se preocupe. Voltarei a sorrir. Desatarei este nó em minha garganta. Voltarei a viver com a pouca alegria que sempre tive. Voltarei a ver as cores que embelezam o mundo, saborear os sons que alegram o cotidiano. Sim, eu renascerei.

Mas não hoje.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Metade é muito


Às vezes penso: quanta coisa já vivi. Se fosse listar o que já me aconteceu, não saberia nem por onde começar.

Infância? Os pés descalços, os primeiros amigos, a família... a escola, as "tias", merenda, lanche, recreio... cada natal, cada presente, cada aniversário. Cada choro, cada palmada....  Aprender a andar de bicicleta, cair, levantar. Cada série que cursei, um pequeno mundo que criei. Adolescência? Faculdade? Trabalho?

Um pequeno detalhe destranca uma porta esquecida na memória. Talvez fosse mais fácil separar as lembranças por sentidos... cada imagem, cada sabor, cada música que gostei... não, não... impossível!

As cidades, as casas que morei, poucas, eu sei, mas ricas em lembranças, em histórias.  E as pessoas? Quantas cruzaram meu caminho? Muitas delas nem mais vivas estão...

Cada amigo que perdi, cada parente que se foi. Entre eu e cada uma das incontáveis pessoas que conheci existe um "nós". Existe um nó. Alguns, bem atados. Outros, desfeitos.

E porque penso nisso?

Talvez porque já tenha vivido tanto, mas tanto, tenha tido tantas experiências, que já se tornou impossível lembrar de todas, catalogá-las, organizá-las. E ainda reclamamos da nossa curta existência...

Vivi apenas 30 anos. Só um terço, na melhor das perspectivas. Ou quase tudo, no pior dos casos. Mas vivi. Tão intensamente que, quando tento relembrar, fico perdido, fico agradecido. Não sei o que sou, de onde vim, pra onde que vou. E porque isso importa?

Há tanto tempo aí, disponível para se viver, que sempre acaba nos folgando algum para reclamar da nossa "efêmera" existência. Efêmera? É, somos ingratos.


quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Carta aberta


"Campo Mourão, 05 de junho de 2006. 

Tássio:

Furto um pequeno lapso de tempo, valioso, cabe informar, para escrever-te (ou escrever-me) um singelo recado, para que seja lido em um futuro incerto. Em outra época cobrei-me, justificadamente, que me dedicasse a escrever mais. 

Acho interessante materializar em alvas folhas de papel (ou em luminosos monitores de computador), um pouco mais do que penso, do que sinto, para que permita, se a alguém interessar, conhecer-me melhor. Especialmente eu. Preciso alcançar um melhor nível de auto-conhecimento.

O tempo é escasso. A ampulheta, a areia do tempo flui, escorrega por entre nossos dedos, sem que possamos retê-lo. E enquanto o tempo rouba sua juventude, você ignora aquilo que pulsa em teu âmago.

Por quê? Tem vergonha? És um ser humano, um ato falho, bobo e sentimental, que buscou, às vezes nos mais dispensáveis detalhes, a perfeição que nunca, NUNCA chegou perto de alcançar. 

O seu futuro, afirmo, logo será passado, e as lágrimas derrubadas neste presente secarão antes mesmo de regar as glórias daquilo que planeja colher. E, se por ventura o sopro gélido ceifar o seu futuro, transformando-o num efêmero passado de tristezas alheias, tua sina poderá ser mais bem compreendida e, tua tristeza, finalmente revelada. 

Por isso reitero: viva, registre, escreva.

Atenciosamente,
Tássio"

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

As pedras vão rolar...

Faz tempo que quero falar sobre música. E já começo alertando aos críticos e musicistas de plantão que, NÃO, eu não entendo nada de música. Nó máximo, arranho quatro ou cinco acordes num violão, mas não consigo cantar e tocar ao mesmo tempo. Eu admito, sou completamente descoordenado (ou disléxico, vai saber...).

Ainda assim, sou um apaixonado pela música. Passo horas ouvindo bons CD's, fazendo downloads (pirataria feelings) e assistindo videoclipes no Redtube Youtube.

Quando somos mais novos, temos a tendência de sermos ecléticos. Eu já fui eclético, até uns 12 anos. Estamos em formação e somos presas fáceis da mídia e da modinha. Mas aí descobrimos algo que gostamos muito, nos aprofundamos e, quando olhamos para trás, temos até vergonha daquilo que curtíamos.

Antes de continuar, quero ressaltar que não estou aqui para ofender ou falar mal de qualquer outro gênero musical. Cada um gosta do que lhe apetece. E às vezes o gosto não é nem uma questão de escolha, é uma questão de identidade. O que eu quero é defender um gênero em especial.

Um dia eu descobri o Rock. Essa vertente musical é tão dinâmica e extensa que ainda posso me definir como eclético. Gosto de rock nacional, hard rock, heavy metal, grunge, punk rock, hardcore, rock progressivo, psicodélico, de garagem... enfim, Rock'n Roll.

A maior parte dos músicos que eu conheço tiveram no rock sua inspiração. Sim, no rock.

Ou por acaso você conhece alguém que quis ser guitarrista por causa de um solo de guitarra de Zezé de Camargo e Luciano? Ou um baterista que vibra com Luan Santana? E o baixo alucinante do Roupa Nova? E  o que dizer daqueles vocalistas sensacionais de funk, de pagode... Ora, os nomes citados são de grandes artistas em seus respectivos gêneros. Mas o foco é outro.

O foco é daqueles que enchem estádios, em qualquer lugar do mundo. É daqueles que estão presentes em todos os países, em todos os idiomas.

Acho que o rock fala para a alma como poucos gêneros musicais. E ele não se limita ao amor, ao saudosismo. Vai além. Fala dos problemas sociais, da violência, de política, corrupção, aborda questões existenciais. Protesta, conta histórias e estórias, fala de anjos, da vida e da morte. Depressão, felicidade, poesia e religião.

E os movimentos musicais que ditaram modas? Existem os músicos que acompanham tendências, são "da modinha". E tem aqueles que ditam as regras. Subvertem a moda, a mídia à sua vontade. Movimento Punk,  movimento Grunge. O rock não conhece fronteiras, não tem limites.

Estou evitando dar exemplos. Seria injusto citar alguns nomes quando o rock fornece toda uma enciclopédia musical, em todos os instrumentos que se possa imaginar. Da flauta ao acordeon. Dos meninos de Liverpool ao vovô que comia morcegos.

É, o rock liberta, quebra paradigmas. Afinal, quem aí nunca quis ter uma banda de rock?


terça-feira, 5 de outubro de 2010

Procurando "eu"


Me perdi, mais uma vez.

Parece uma simples questão de estar, quando na verdade se trata de uma questão de ser. Estou perdido, mas eu ainda sei onde estou. Paradoxo? Não. O que eu não sei é: quem eu sou?

Ainda não descobri. Mas já sei onde procurar: lá, bem longe dos holofotes, escondido no silêncio da reflexão, em meio à solidão dos meus pensamentos.

A jornada é longa, a estrada sinuosa. Mas é apenas lá que poderei me encontrar, descobrir quem eu verdadeiramente sou. E você, sabe onde se encontrar?

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Em busca da criatividade perdida

Raramente começo um texto fazendo ressalvas. Neste caso, é mais do que importante. O título “Em busca da criatividade perdida” não quer dizer que perdi minha criatividade e agora quero recuperá-la. Pelo contrário, eu nunca tive criatividade, então estou procurando por alguma que alguém tenha perdido. E não pretendo devolver.

Feitas as considerações iniciais, todos sabem como é difícil começar um texto. Às vezes temos tantas idéias, tantos conceitos, mas, sabe-se lá porque, eles ficam aprisionados dentro de nós, trancados atrás de uma porta chamada “primeiro parágrafo”. Depois de aberta, as idéias costumam fluir com naturalidade.

Mas isso é pra quem tem idéias. E o que eu mais queria era ter uma idéia. Mas não uma idéia qualquer. “A idéia”. Criativa e original. Encantadora e arrebatadora, o que tá difícil. Muito difícil.

Eu já publiquei... (deixa eu ir no blog contar...) 11 textos. 12 com este. Escritos e salvos no computador pessoal, algo em torno de 130 (muitos dos quais nunca serão publicados, asseguro). E até hoje, nada. Nenhum clarão, nenhum súbito momento de inspiração divina, de elevação espiritual. Nada.

E é exatamente isso que eu espero. Um dia (eu ainda sonho que esse dia vai chegar) vou sentir uma profunda inspiração e, quase que possuído por uma genialidade cósmica, vou arder em uma febre onívora de observação (xiii, Marquinhos...) e vou conceber minha obra prima. E vou poder enfim sentir o deleite sagrado dos deuses, o regozijo supremo.

Tenho certeza que quando Mozart compôs sua obra prima, Don Giovanni, ele deve ter curtido muito o seu momento, concluindo: “eu sou foda!”. Einstein, depois da teoria da relatividade, deve ter acendido um belo charuto, tomado uma taça de vinho, e pensado: “pobres mortais...”. O que eles tinham em comum? Eram gênios, e sabiam disso. E sabiam também que suas obras eram fantásticas. Eles riam por dentro, de tanta felicidade.

E eu? Eu já estou cansado das vozes que eu ouço. Elas não me sopram nenhuma coisa interessante, digna de registro. Conversando com um garfo, ontem, percebi que estou cada vez mais longe do que nunca de ter uma idéia genial. O que também deve ser consenso entre vocês, leitores. Mas teimoso como sou, eu ainda não desisti de encontrar, perdida por aí, a criatividade perdida de alguém.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Deuses do nada

Somos animais. Mamíferos, primatas e hominídeos. Mas não se preocupem, biologia não é o foco desta nova divagação etílica. Tá, tudo bem, eu confesso, não estou alcoolizado. Mas seria uma boa desculpa para justificar o que vai acabar surgindo nas próximas linhas. Se é que tem desculpa...

Pluricelulares. Esta é a última expressão que empresto da biologia. Somos animais compostos por cerca de 50 trilhões de células (obrigado Google) que nos dão essa aparência, essa unidade.

Eu disse... unidade?

Ora, cada pequena célula é um micro-organismo vivo que pode, inclusive, viver e se reproduzir fora do corpo humano. Nós somos um conjunto de trilhões de células vivendo em uma organizada forma de sociedade microscópica.

De onde vem então essa unidade, essa individualidade que nos permite julgar os verbos na primeira pessoa? Essa noção de individualidade não reside em nenhuma das nossas células. Não há um “eu” biológico ou celular dentro de você. Há apenas um conjunto de células. Quem sou “eu”? Não seria mais correto dizer “nós”?

Quando usamos o “eu”, não estamos dizendo, “meus pés gostam de chinelos” ou “meu cérebro não gosta de matemática”. Estamos dizendo apenas “eu”. Mas não existe esse “eu”. Existe apenas o “nós”.

Tá, eu sei, soaria estranho dizer “nós, membros da Republica Pluricelular Tassio Denker, queremos um Big Mac. Coca-Cola Zero, por favor.”

Questionar não é crime. Sempre me pego pensando nessas questões fundamentais acerca da existência humana (fundamentais?! existência humana?! WTF?!). O problema realmente começa quando eu quero responder essas questões.

Aconselho, portanto, que parem por aqui.

Bem, já que vocês insistem, agora é por sua conta e risco.

Milhares de pequenos seres vivos, que vivem em função de um “ser maior”, que não existe individualmente, senão no conjunto de todos eles... Um ser superior, que comanda e condiciona estes pequenos seres vivos... Um ente que não passa de uma “consciência” maior que seus pequenos seres...

Seríamos um.... (rufar de tambores)... Deus?

Sempre achei que eu era especial (excepcional talvez?), mas um Deus? Somos deuses de nós mesmos? Deuses do... nada?

Segundos antes de publicar esse texto me veio outra idéia, providencial e que pode inclusive amenizar a minha barra: seria esta unidade o conceito de alma? (ufa!)

Tá, tomei muito do seu tempo, eu sei. Mas nunca prometi algo bom mesmo. Eu e minhas teorias furadas. Aliás, eu já comentei com vocês sobre a minha teoria acerca da origem do universo?

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Um dedinho de prosa

Como você se sente quando suas potencialidades não correspondem às suas expectativas?

Adoro a poesia e admiro quem tem o dom e a facilidade de brincar com os sentimentos e as palavras. Eu queria ser poeta, dominar essa arte com leveza e elegância.

Eu? Eu escrevo. Tento transformar sentimentos em palavras, sensações em verbetes, pensamentos em vocábulos. Mas, infelizmente, fui condenado a essa forma de prosa, prosaica, lugar comum. Tenho o espírito triste, um olhar melancólico. Sinto que tenho alma de poeta. Tão somente a alma.

Minha criatividade e o meu intelecto são absolutamente incapazes de tratar as palavras com carinho. Surro-as, despejo-as, sem paixão, sem emoção. Desordenadas e caóticas. Apenas empilhadas, parágrafo após parágrafo.

Que emoção seria eu capaz de despertar, de instigar, se quando muito trago nos meus textos um pouco de razão?

O poeta não faz apenas poesia; dá som às palavras, cor aos sentimentos, aroma aos trocadilhos. Eu faço cinema mudo, preto-e-branco, construo jardins sem flores. É como se eu tivesse nascido para voar, mas minhas asas me foram negadas.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Felicidade a conta-gotas

Já disse uma vez Sartre, filósofo existencialista: “O homem está condenado a ser livre”.

Tá certo, eu sei, essas expressões, esses filósofos, palavras difíceis, paradigmas e paradoxos que nos deixam tontos... fica frio, não vamos viajar nessas loucuras.

Tudo começou esses dias atrás, quando alguém, no twitter, se perguntou se a felicidade seria um estado pleno e absoluto que podemos alcançar, ou então a vida que é feita de momentos felizes e outros não, que se alternam para sempre. Depois de ler tal questionamento lá estava eu, novamente, refletindo.

Refletindo porque, de certa forma, eu não estava chegando a nenhuma conclusão inédita. Era apenas um reflexo de uma idéia já bem sedimentada.

Cortando um pouco o caminho, posso adiantar que eu jogo no segundo time. Acho que até podemos nos definir como pessoas felizes ou infelizes, mas o que nos dá essa autoridade é um conjunto de momentos que vivenciamos. É certo que dia estamos alegres, felizes, outros nem tanto.

Penso isto porque, de certa forma, creio que nenhum ser humano é um adjetivo. Somos humanos, e só. Vivemos um dia após o outro e, a cada um desses dias, fazemos inúmeras escolhas e projetos que nos permitimos nos rotular. Fulano é medroso, beltrano é sincero, sicrano é invejoso.

O que eu quero dizer é que, ninguém é corajoso, medroso, falso ou sincero. Fazemos escolhas corajosas, medrosas, falsas ou sinceras. A cada novo desafio, nos comportamos de acordo com nossos sentimentos.

Ninguém nasce corajoso ou covarde. As pessoas nascem humanas e traçam seus próprios caminhos. Traçam seus próprios projetos de vida, baseadas em suas escolhas. Algumas dessas escolhas sim, podem ser corajosas ou covardes.

Nós humanos somos, portanto, apenas o projeto de nós mesmos. Mas não aquele projeto ideal que traçamos com base nas nossas potencialidades. Nós somos aquele projeto que estamos executando, dia após dia, nas pequenas escolhas que fazemos.

E eu? Eu sou quem eu decido ser... às vezes medroso, às vezes sincero, às vezes culpado. Sou imperfeito, como as escolhas que faço. Mas o importante é que eu sou meu, ou seja, senhor destas escolhas.

E o que isso tem a ver com a felicidade? Não sei. Talvez porque essas nossas pequenas escolhas reflitam sobre nosso estado de espírito, nos fazendo sofrer, nos fazendo sorrir. Talvez a infelicidade venha quando nos deparamos com as falhas do nosso projeto.

Acho que, no fundo, felicidade tem a ver com essa liberdade de escolha. Essas pequenas escolhas do dia-a-dia, a felicidade a conta-gotas. Liberdade essa citada na frase do primeiro parágrafo. Mas agora, se isso tudo foi um pouco chato, peço desculpas. É que isso é existencialismo.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Preguiçoso, eu?

Preguiçoso não seria bem a palavra certa para me descrever. Tá certo, eu concordo que às vezes, “às vezes”, eu passo essa impressão. Mas talvez a palavra inerte seja mais cabível para descrever meu peculiar jeito de ser. E inerte não é necessariamente preguiçoso, mas simplesmente alguém que age de acordo com as leis. A primeira lei de Newton, mais especificamente.

Não é fácil por essa massa toda em movimento. Estou em repouso e, portanto, como já “legislou” Newton, tendo a permanecer em repouso. Eu é que não quero ser taxado de insurgente, de rebelde ou de caudilho da física clássica. Prefiro à obediência.

Este estado de repouso, por sua vez, de aparente inércia, não se encerra, como pensam muitos, na ausência de atividades. Pelo contrário. É no repouso e no silêncio que exerço uma das atividades mais fascinantes que podemos desenvolver: a observação.

A observação é uma atividade genuinamente passiva. Olha aí uma antítese interessante... (e olhe eu aí divagando e perdendo o foco...)

Contemplativo poderia descrever o meu semblante em grande parte do tempo. E é engraçado como essa aparência de calmaria esconde uma grande inquietação causada pelo borbulho de idéias, constatações, juízos e confusões que se desenrolam o tempo todo dentro de mim.

Claro que 99% de tudo que eu penso eu descarto. Minha “lixeira” mental vive precisando “esvaziar”. Talvez sejam tantos sentimentos, tantos pensamentos que a “máquina trava”, e fico assim, com essa cara de bobo olhando pro vazio. Os pensamentos que sobram, de vez em quando, posto nesse blog.

Em fim, dei voltas, enrolei, gastei meu verbo e o seu tempo tentando te convencer que:

Preguiçoso não, observador!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O espelho d'alma

Há anos havia estado nesta mesma casa, nesta mesma rua. Nada estava diferente, até mesmo sua cor permanecia a mesma, embora renovada. Lembrei então daquela janela, no sótão, com aquela maravilhosa vista para a vila.

Da última vez que havia olhado por esta janela, vi crianças alegres brincando, com o brilho amarelo do sol em suas faces. Lembro que queria me juntar a elas. Vi árvores, belas, corpulentas, antigas e retorcidas, desafiando a gravidade, chacoalhando à brisa que embalava seus galhos e farfalhavam suas folhas.

As flores no jardim refletiam cores radiantes que se destacavam no gramado verde. Aves e borboletas dançavam no ar, enquanto as abelhas trabalhavam incessantemente. De relance, vi um jovem ajudando uma senhora, buscando-lhe alguns papéis que o vento lhe roubara. Era uma lembrança muito boa.

Ao chegar, porém, àquela mesma janela, descortinei outra paisagem. Vi, logo, uma grande algazarra composta por crianças intrépidas se maltratando. Elas corriam de um lado para o outro, com os olhos cerrados, incomodadas com o sol. Senti vontade de censurá-las, gritar e mandá-las às suas casas. As árvores, outrora majestosas, mal suportavam a si mesmas, velhas e cadentes.

As flores no quintal pareciam prostitutas, se abriam e se entregavam a toda espécie de parasitas e insetos. Os pássaros pardos, cujas cores foram roubadas, eram mudos, imundos e horrendos. Teimavam em rasgar a paisagem como se fossem corvos em busca de carniça. Vi o descaso no rosto de um jovem, correndo para buscar um documento que uma velha de fisionomia amargurada deixara cair.

Como pôde o mundo mudar tanto em alguns anos, em uma década? Olhei novamente para fora. Lembrei-me da visão que guardava com carinho. Só então me dei conta. A paisagem continuava a mesma. Eu é que estava diferente.

Escrito em 06/07/2005

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

À deriva

Às vezes, me pergunto: por que escrevo? Por que resolvi criar um blog e, mais importante, o que seriam meus textos neste imenso oceano chamado “Internet”? É tão imenso! Tão grande que ninguém nunca poderá cruzar seus sete mares, nem sobrevoá-lo por completo em 80 dias.

Bem, eu escrevo... eu escrevo... ah, nem sei porque eu escrevo. Acho que quando publico mais um texto, é como se eu o colocasse em uma garrafinha, e o lançasse ao oceano, como fazem os náufragos. E assim, meu texto, meu blog, fica por aí, à deriva, neste imenso mar.

E quando algum navegante o encontra, e o lê, é como se tivesse içado aquela garrafinha transparente, desenrolado uma mensagem e compartilhado, por alguns instantes, os pensamentos e sentimentos deste náufrago que vos fala.

Aí, então, insistindo nessa mania de ser eu, repetitivo, repergunto: por que escrevo? Afinal, se o mar já está tão poluído, quem vai prestar atenção em mais uma garrafinha boiando?

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Devia ter anotado?


Todos os dias, antes de dormir, passo por um estranho ritual. Quando me deito e fecho os olhos, abre-se, instantaneamente uma, duas, milhares de janelas em minha mente que passa a divagar, acelerada, num ritmo frenético, idéias e idéias sem fim.

O ritmo com que fluem me faz cogitar, às vezes, que no silêncio da noite, na solidão dos meus pensamentos, ouço vozes.

Mas elas não me sussurram palavras; inspiram idéias. Tenho a impressão de que sou cercado por espíritos que, invocando minha mente, me fazem delirar. Eu, por costume, as ignoro, com a clara certeza do posterior arrependimento. 

Quase sempre são idéias mórbidas, fúnebres, depressivas e, ao mesmo tempo tão... tão encantadoras. Reforça-me a idéia de que são obras dos espíritos, pois tais serenatas de beleza à morte somente poderiam ser frutos de quem já não vive mais.

Mas, como sempre, deixo as idéias fluírem, regozijo-me com esporádicas sensações de criatividade, originalidade e genialidade. Após alguns minutos me acalmo, meus pensamentos desaceleram, voltam-se para objetos mais mundanos e, por fim, estanco este outro ser que vive em mim. De volta à minha jaula, permito-me dormir e, como sempre, esquecer tudo que pensei.

Não sei sobre o que eu pensava ontem. Só sei que era triste e encantador. Devia ter anotado. Mas não o fiz. Eu dormi e encerrei para sempre alguma idéia que poderia ter dado um belo poema. Ou, quem sabe, inspirado uma morte.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Bullying, tá ligado?

Você sabe o que é bullying?

A 1ª Promotoria de Justiça de Campo Mourão produziu, sob a coordenação da Dra. Rosana Araújo de Sá Ribeiro Pereira, Promotora de Justiça de Defesa da Educação, o vídeo "Bullying, você sabe o que é?"

O vídeo foi produzido a partir de imagens extraídas da internet e mescladas com o videoclipe "Jeremy", da banda Pearl Jam, que conta a história de Jeremy Wade Delle, 15 anos, que cometeu suicídio frente à sua turma, em 1991, na cidade de Dallas no Texas, Estados Unidos.




O material está sendo usado em palestras de conscientização nas escolas públicas de Campo Mourão/PR.



terça-feira, 6 de julho de 2010

Sobre a J.*

Não a conhecia. É assim que prefiro começar. Não quero aqui lamuriar, chorar, tão pouco apresentar minhas condolências à família. Neste ponto, prefiro o silêncio. Às vezes, não falar nada tem mais peso, demonstra mais respeito e sinceridade do que a lágrima sem sal, do que as palavras vazias, decoradas e repetitivas. Seria apenas mais uma frase, semelhante àquelas que irão ouvir por um bom tempo.

Posso até acrescentar que, pelas poucas vezes que a vi, cometi um grave erro: julguei-a por generalização. Era apenas mais uma burguesa, “Patricinha”, cujos sentimentos vazios e inócuos reinavam em seu contexto social, regado a muito dinheiro do pai e indiferença para com o resto do mundo. Estava errado, e se possível fosse, pedir-lhe-ia desculpas. Ela não era assim. Sobre os seus familiares, assim como muitos (não todos) que velaram seu corpo, eu não consigo, ainda, ter uma opinião diferente. Acho-os arrogantes. Ou então insisto no mesmo erro. Mas ela, ela não.

“Olhar triste” definiu alguém que igualmente não a conhecia, e pouco contato teve. Hoje, muitos julgam seu ato, sua vida, sofrem, rezam ou, quem sabe, respiram aliviados. Infelizmente, a grande maioria o fez com indiferença. Apenas encenam no fúnebre palco que a morte descortina.

É tão simples. Poucos são capazes, seja qual for a situação, o motivo, de compreender tal ato. Infelizmente, rotulam de covarde essa escolha. Eu, particularmente, discordo. Não há coragem maior na vida do que abrir mão dela. Mas isso pouco importa.

Não há como, racionalmente, compreender o porquê. Ora, isto não foi decidido racionalmente. Temos por hábito respirar fundo, refletir e calmamente julgar as pessoas e seus atos quando, no entanto, estas praticaram um ato com pressão, tristeza, raiva, angustia e desespero insuportáveis. Como entender agora, confortavelmente, um ato praticado sobre uma carga emotiva tão forte?

Não sei se conheço pessoas que poderiam compreender o porquê. Quando se está triste, depressivo, não existem muitas opções. É fácil condenar quando se está em um lugar plano, calmo, e pode-se ver o horizonte. Quando se está no poço, onde os limites de seu alcance podem ser tocados com os braços, vivemos outra realidade. Vivemos o desespero.

Somos livres. Invariavelmente livres. Independente do (des)credo de cada um. Eu a chamo de liberdade natural, direito in natu de escolha. Os cristãos preferem rotular de livre arbítrio. Não importa a palavra. Importa a essência. Temos sempre o direito a uma escolha.

Por que, então, culpá-la por tal escolha? Esqueçam dos motivos, esqueçam da tristeza. Era a vida dela, e ela assim decidiu. Ninguém escolhe racionalmente o que quer para si o tempo todo, e, além do mais, sua escolha recaiu sobre si mesma. Alguns poderiam dizer que a amavam, que isso prejudicou todos aqueles que dela gostavam, que não pensou nos outros. Mas de quem era a vida? Quem estava sozinha, sofrendo? Quem não era compreendida, quem não era feliz?

Também sou, no domínio das minhas razões, completamente contrário ao suicídio, que fique claro. E pretendo manter sempre esse domínio sobre minhas emoções. Mas fora de si, quem é capaz de cumprir à risca seu código de ética, de não infringir suas convicções morais?

É egoísmo querer ter uma pessoa por perto, quando ela quer estar longe. Nós, seres humanos, não somos brinquedos, marionetes, objetos de ninguém. Não somos res. Somos livres e pertencemos à nós mesmos. Eu? Eu sou meu!

Talvez tenha sido um momento de angústia terrível, tristeza aguda, que cega, limita o raciocínio. Ou então tenha sido, há algum tempo, premeditado. O que importa? Seja qual for a situação, não compreenderemos a sua razão a não ser que estejamos em análogo estado emotivo, sobre a mesma carga psicológica, hormonal.

Eu sou ateu, mas não gosto desta palavra. Ela tem uma sombra negra, uma carga de preconceito muito grande. Tenho uma tristeza comum àqueles que compartilham comigo esta visão: a morte é o fim de tudo. Não é fácil viver toda uma vida voltada para um fim material, carnal, e ao mesmo tempo espiritual. Ver na morte o fim de tudo é assombroso. No entanto, talvez seja esta a única situação que me vejo com a consciência mais limpa, plena, leve.

Não vejo, como aqueles que têm suas crenças, o suicídio como algo diferente. Não temo por ela a danação eterna, retrocesso kármico, tão pouco um espírito perturbado condenado a sofrer neste plano.

Vejo apenas a liberdade, alívio. É o repouso eterno, é o desligamento de um corpo, o instrumento de consciência sendo desligado, nada mais. Não vejo diferença quando se trata de morte, e tão pouco me sinto feliz com minha convicção. No entanto, não carrego todo mal que vem embutido na morte pelas próprias mãos.

Palavras assustadoras, quase proibidas. "Ateu"... "Suicídio"...

Algumas coisas marcam a gente. Não a conhecia, mas posso afirmar que fui solidário com as pessoas que a conheciam e dividiam comigo o mesmo ambiente de trabalho. Mas ao mesmo tempo, coloquei-me em um raro estado de observação, e vislumbrei este contexto que, por fim, mexeu comigo. É uma atitude muito drástica, forte, carregada de simbolismo. E também de futilidade.

Eu me pergunto: Quando foi que eu vi alguma pessoa completamente miserável cometer suicídio? Não, não me lembro.

Temos, todos nós, dois tipos de necessidades: as primárias e as secundárias. De fato existimos apenas com as primárias. Comer, dormir, beber, respirar, reproduzir. Nada mais. Existimos, mas não vivemos.

Nós precisamos é de todo o resto. Das necessidades abstratas, criadas pelo meio cultural em que vivemos. Essas que não existem no plano real, não importam a nossa sobrevivência. São objetos ideais da nossa conveniência. Todas as necessidades secundárias que temos e que foram criadas por nós. E, estranhamente, vivemos (nós, sociais) em função destas necessidades secundárias. Prefeito, Juiz, Gerente. Orkut, MSN. Miss-alguma-coisa, Doutor. Tudo ficção, criação cultural da sociedade. O que é o dinheiro senão um pedaço de papel ao qual depositamos um valor abstrato?

Hoje, para aquele rapaz que vai se suicidar, comer e beber é esporte. Ele não precisa se preocupar com a próxima refeição. Nos preocupamos com a bolsa de valores, com o dólar, com o preço da soja, a taxa de juros. Com o quem a atriz se casou, de quanto a seleção venceu.

Ninguém se suicida por frustração primária. “Criamos nossas próprias expectativas para nela amargurarmos nossa derrota”. Ninguém comete suicídio porque quis comer, por toda a vida, uma lagosta, e com 48 anos, ainda não conseguiu.

Este mundo abstrato, essa sociedade abstrata, essas comunidades abstratas são tão poderosas que limitam a necessidade de nossa existência em suas esferas. Somos prisioneiros delas, pois fora somos dispensáveis, descartáveis. O que é o bullying senão uma retaliação aos jovens que não se submetem às essas regras abstratas?

Hoje, tenho plena convicção que estou imune a tal atitude. Ledo engano. Mas prefiro pensar assim. Nossa existência de fato escapa a estes costumes sociais, morais e de direito. Nossa felicidade infelizmente não. Se nossa luta diária fosse por um pedaço de pão e um pouco de vinho, seríamos, ao final de cada dia, felizes. Mas são exatamente países como a Suíça e o Japão que amargam índices altíssimos de suicídio.

Não culpo. Não somos imunes às necessidades sociais. Meu histórico aponta a compreensão de momentos tristes. Vivo, quase todo o tempo, imerso em minhas convicções morais e filosóficas que, invariavelmente, são igualmente abstratas, e igualmente frustrantes. Amargo derrotas quase todo o tempo. Não valorizo minhas vitórias tanto quanto algumas pessoas alheias valorizariam.

Tenho comigo apenas uma certeza: que na morte encontramos a paz. A mesma consciência que temos de nós mesmos é tão abstrata quanto às leis sociais a que nos sujeitamos. Uma consciência que se apaga encontra, no vazio da não-existência, a paz eterna.

*J. era uma garota, de vinte e poucos anos, que cometeu suicídio em 2005. Este texto foi escrito cerca de três dias após sua morte. Algumas das convicções pessoais deste autor já sofreram alterações. Outras, ainda são as mesmas.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Pretérito presente

Surpreendo-me, às vezes, relendo as palavras que escrevi no passado, recente ou remoto. Não se trata, no entanto, de concordar ou discordar, se arrepender ou reforçar determinadas idéias. Nada mais do que observação passiva, digestão, ruminação, amadurecimento ou simples análise do contexto ao qual tal idéia fora forjada.

Surpreendi-me, como ressaltei no parágrafo anterior. E agora? Parágrafo novo, vida nova. Tempo é sempre uma constante nas minhas divagações absurdas. Fascina-me o modo como ele interfere em nossas vidas, mesmo que não possamos compreendê-lo em sua essência, dominar sua natureza ou manipulá-lo à nosso bel prazer.

O tempo, nosso maior aliado, nosso maior inimigo. Alguém que nunca poderemos derrotar.

O passado é repleto de história, de erros e acertos. De mistérios, curiosidades, monstruosidades, aberrações, fatos heróicos e vergonha. O futuro... ah, o futuro! Uma incógnita, um mistério cheio de esperanças, é claro. Esteja ele escrito pelo destino ou em construção pelos atos presentes e passados que interligam todos os entes deste universo.

E o presente? Nunca pensei ter dúvidas sobre o presente. O presente vive-se.

Disse no início deste texto que me surpreendia. Sim, estamos a quatro parágrafos de tempo daquele instante. “Disse”. Pretérito perfeito. Será que essa nova medida de tempo, parágrafos, permite-nos afirmar que a primeira linha desta cártula pertence ao passado?

Digas, então, o que pertence ao presente? Cada parágrafo, frase ou palavra dita, antes mesmo de concluída, pertence ao passado. Cada sílaba concluída, antes mesmo de proferir uma nova palavra, já pertence ao pretérito. Que é o presente, senão um eterno passado recente? Que lapso de tempo pertence ao presente? Uma hora, um minuto, um segundo? Agora? Pronto, passado.

Ora... diria, mas não, está dito. Fora dito. Não me pertence mais. Cada frase deste texto, cada parágrafo desta divagação. Posso me arrepender, posso reformulá-la, posso corrigi-la. Somente enquanto dure o processo de criação. Mas aqui e agora, impresso e em tuas mãos, ou visível em reluzentes telas de computador... representam apenas passado.

Um passado onde gastei um tempo que um dia fora presente, cujo lapso escorre por entre meus dedos como a areia escapa à ampulheta. Um passado onde cada palavra lida representa o que se foi, e as que virão, no futuro, se farão presente e pretérito sem que percebas disto. Viste?

O presente é agora. Não esta primeira oração deste parágrafo conclusivo. Ela já pertence ao passado. Este texto é pretérito. Sua consciência, agora, é o presente. Sua lembrança o passado e sua dúvida, o futuro.

Escrito em 11 de janeiro de 2007.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Palavras

Tenho muitas PALAVRAS para compartilhar, mas não sei por onde começar. Afinal, são apenas algumas palavras. Apenas?

Palavras não são apenas “palavras”. As palavras são um pequeno sopro sonoro da nossa alma, que expomos ao mundo, revelando a intimidade da nossa consciência, o segredo dos nossos pensamentos.

As palavras são como flechas, que armamos e disparamos contra alvos (in)determináveis. E como as setas, podem ferir, podem lacerar, podem tornar irreversíveis alguns dos mais humanos sentimentos.

Mas as palavras também podem curar. Podem remediar. Podem fazer-nos heróis, ou covardes. Adjetivos, e adjetivos são palavras, palavras que escolhemos ser. Locuções verbais, sujeitos e predicados. Somos objetos da palavra, ora diretos, ora indiretos.

Palavras empilhadas fazem prosa, palavras selecionadas poesia. Meros Verbetes? Vocábulos a esmo? Não, não as palavras.

As palavras possuem classe, possuem estirpe. Outras são a escória. O que diferencia a expressão “prostituta” da “puta”, essa meretriz do dicionário culto?

Palavras são marginalizadas, literalmente e com direito à pleonasmo. Vejam o preto, primo pobre, vil e desprezível do negro. As palavras carregam quase que com vida própria, suas próprias significações. Nossas significações, nossos sentidos. Quem disse ao negro que preto era crime?

E o preciosismo, sem valor – que se diga – dos excessos de alguns literatos, advogados e jornalistas? Maltratam-nas, expondo-as indelicadamente, como servas à sua vontade, castigando-as para satisfazer o ego déspota de seus locatários. Tratam-na como se não precisasse de carinho, como se sua beleza individual ofuscasse a falta de criatividade crônica daqueles que se julgam tão... poetas.

Buscam-na, às vezes, em outras culturas, em outros povos, em outras línguas, e as expõem, nuas e cruas, em meio ao vernáculo, deixando-as perdidas, solitárias em meio às muitas outras palavras.

Palavras cantam a beleza do mundo, declaram guerras. Palavras punem crianças, adornam lápides, enaltecem as mulheres. Palavras escrevem a história, palavras entram para a história. Palavras são a história, pois antes da palavra, sequer havia história. Quantas palavras repetidas... Afinal, que palavras são inéditas?

Que palavras dizer, em sã consciência, que o subconsciente, sujeito oculto, às vezes indeterminado, é louco, doido varrido?

Palavras, mais que palavras. Transmitem nossa personalidade, revelam um pouco do nosso caráter. Alguns defendem a palavra a até a morte. Outros, gênios da verborreia, não tem sequer palavra.

É, palavras não são apenas palavras.